quinta-feira, 4 de junho de 2009

O chá


Para além do chá, há poucas coisas mais que os Afegãos bebem.

Como regra bebem muito pouca água, acreditando com veemência que o chá é muito melhor para a saúde.

Aparentemente, alguns chegam mesmo ao extremo de eliminar por completo o consumo de água durante o inverno!

A bebida nacional é então o Chai Sabz (chá verde) seguido de perto pelo Chai Siaa (chá negro), sempre bebido a escaldar e com muito açúcar.

Mijjam yék Chai Sabz bérr bojurumm!

(tradução literal: Queria um chá verde para beber!)


quarta-feira, 3 de junho de 2009

“O meu jantar”

Algumas pessoas têm-me perguntado como é que é a nutrição no Afeganistão.

À parte dos mais variados sumos de fruta feitos na hora, o prato rei é o borrego e os acompanhamentos são o arroz a batata e o pão.

O borrego é confeccionado frequentemente em espetadas ou então estufado de várias maneiras, nomeadamente com batatas ou grão-de-bico.

Um aspecto curioso das espetadas é que normalmente são intercaladas com uns cubos de gordura, provenientes da cauda do borrego, que no Afeganistão ostenta (como dá para ver na foto) uma bolsa enorme de gordura.

Essa bolsa por sua vez é muito apreciada e o preço por quilo é substancialmente maior que, por exemplo… o lombo!

No entanto, confesso que quando como as espetadas, nem toco nos cubos de gordura...

Para aqueles que adoram cultivar a fé de que a gastronomia portuguesa é mais criativa do mundo, como podem ver na fotografia, os “túbaros” não são um prato exclusivamente lusitano…

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Burqa

Eis parte de um e-mail recebido há pouco, e as fotos que o acompanhavam:

Durante este tempo que tenho permanecido no Afeganistão, de volta e meia oiço à esquerda e à direita as pessoas falarem sobre o tema da Burqa.

Sem querer de todo entrar numa discussão política sobre esta peça de vestuário que tem sido tão intimamente (e negativamente) associada ao Afeganistão, apercebi-me de um conjunto de opiniões interessantes que gostava de partilhar convosco.

A moda feminina no Afeganistão não começa e acaba na Burqa.

Na realidade, tenho visto uma variedade de peças de vestuário e calçado bem variado, com desenhos bem sensuais e por vezes até bastante arrojados!

Aparentemente o uso da Burqa já eram comum em diversas sociedades tribais no Afeganistão antes da chegada do Islão.

A Burqa confere à mulher “comum” Afegã uma forma de mobilidade com segurança, que doutra forma (como noutras sociedades) estaria mais vulnerável a um conjunto de potenciais incidentes que também são comuns no nosso próprio país.

Depois há ainda a influência das sucessivas guerras, onde milhares de pessoas se concentram em campos de deslocados/ refugiados, com muito pouco espaço e privacidade, em que a mulher (do ponto de vista prático) tem de lidar com riscos acrescidos no que toca à sua integridade.

Segundo me apercebi, foi também no contexto da guerra civil que alguns grupos considerados mais radicais proclamaram o uso obrigatório da Burqa em determinadas circunstâncias.

Não quero contudo querer transparecer que a vida da mulher Afegã é um “mar de rosas”, antes pelo contrário! …pois os códigos sociais vigentes em vários aspectos são severos para as mulheres, além de que a vida aqui é muito dura e há necessidade de praticamente tudo! Mas mesmo com a informação reduzida que disponho, parece-me que a mulher “comum” está mais preocupada com outras questões, tais como a segurança alimentar, saúde, educação e o acesso ao mercado de trabalho, do que propriamente com uma indumentária que lhe confere, como já foi referido, anonimato, mobilidade e segurança.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Turismo em Cabul!

Passo a transcrever um e-mail bastante descritivo recebido ontem:

Junto envio algumas fotografias feitas esta tarde, imaginem só… com o telemóvel.

A primeira foi feita no mercado dos pássaros, que fica numa parte antiga da cidade. Na realidade é uma rua que fica dentro de um mercado (Ka Faroshi) onde se vende todo o tipo de coisas: desde géneros alimentícios (confeccionados, não confeccionados e vivos!), tecidos, ferramentas, roupas, detergentes, relógios e outras bugigangas. Na realidade também comprei lá o meu colete, que aparece no meu auto retrato (post anterior). Apesar de haver pássaros de todas as cores (incluindo violeta claro! – os ornitólogos que me perdoem pela forma simplista como me exprimo…) a grande estrela é uma espécie de perdiz lutadora com o bico vermelho (perdoem-me outra vez…). Aparentemente, os donos têm tanta estima pelas suas “perdizes lutadoras” que nas lutas não as deixam na realidade magoarem-se. Assim que uma perdiz se demonstra mais agressiva que outra, acaba logo a luta. Hoje, porque já era tarde, perdi as lutas, mas na próxima sexta (o dia off Muçulmano) lá estarei caidinho!

Nesta zona da cidade nunca vi qualquer estrangeiro. Aliás, em Cabul raramente se vêm estrangeiros a pé. Ou se existem, também estão vestidos com roupas Afegãs! …e como uma boa parte da população tem um aspecto muito Europeu (cabelos, olhos e pele claros), se nos vestirmos com as suas roupas e não abrirmos a boca, também passamos por Afegãos! Muito conveniente se quisermos tranquilamente misturar-nos com a população.

Quando abro a boca, muitas vezes perguntam-me se sou Americano. Quando descobrem que sou Português, frequentemente mencionam logo o Figo ou Cristiano Ronaldo, que são claramente no momento os embaixadores Portugueses à escala planetária…

Como acontecia em tempos e noutras viagens, o Mário Soares já foi claramente deposto neste papel importante!

A segunda, é uma fotografia do meu almoço que foi mais lanche/ jantar (porque já eram 17H30). O prato era composto por frango frito com batatas fritas e salada (aposto que a minha irmã já se está a “passar” – e talvez com razão – a ler estas palavras… a hepatite e outras coisas que tais…) , tudo polvilhado com um pó vermelho que não percebi se era piri-piri ou simplesmente paprika. Depois da minha estadia no Sri Lanka, tudo o que é suavemente picante já não consigo sentir... Um dos copos era de sumo de laranja e outro uma espécie de batido de manga adornado com amêndoas e pistáchios. Tudo uma verdadeira delícia que entretanto já passaram o teste gástrico das 3 a 5 horas com distinção!

O Senhor em frente está a comer um gelado (que são mais ou menos) e a televisão estava a passar um daqueles concursos de cantores jovens num canal indiano em altos berros que competia com a música lá de fora que oscilava entre o pop indiano e o pop persa.

A terceira fotografia, é uma situação de rua que creio que não necessita de grandes comentários, a não ser o facto de se revelar talvez totalmente incompreensível para quem não aprecia este tipo de turismo.

No geral, o potencial para a fotografia é elevadíssimo, mas é algo que vou ter de refrear (fotografar com o telemóvel discretamente não conta). Um ou outro jornalista (sempre vestidos de Afegãos) disse-me que fotografa mais ou menos à vontade, mas que evita sempre apontar a objectiva para as mulheres (um tópico sempre muito sensível por estas bandas) conjuntamente outro tipo de situações que vou mencionar mais adiante. De qualquer maneira todos eles no geral falam um bocadinho da língua dominante em Cabul, o que obviamente ajuda a criar empatia e ao mesmo tempo a ultrapassar alguma possível animosidade.

Obviamente que outro protagonista (fotográfico) proibido é tudo o que tem a ver com as forças de segurança (soldados, polícias, veículos ou instalações – Afegãs ou internacionais).

Sendo assim, dado que pelo menos metade da população é feminina, conjuntamente com o facto que (como podem imaginar) a presença de forças armadas é elevadíssima, limita enormemente a possibilidade de fotografar. Ainda assim, acreditem que existem mil situações interessantes de registar fotograficamente onde os mencionados protagonistas não estão envolvidos!

Em jeito de conclusão, creio que me resta – pelo menos por enquanto – “apenas” registar com os olhos… o que em boa verdade, já não é nada mau!