Há alguns meses, quando se encontrava em Vavuniya a acompanhar o projecto da SEED (Social Economical and Environmental Developers), o Alexandre visitou esta família e escreveu o texto que se segue a esse propósito: 
“A família que retratei é composta por uma mãe viúva e seis filhos. Dois rapazes e quatro raparigas.
Os rapazes têm necessidades especiais, sendo ambos surdos.
A SEED fornece à escola da aldeia, num protocolo com o governo, um colega com “treino” em necessidades especiais, que dá instrução básica adaptada às crianças nestas condições. Até então não podiam frequentar a escola, pois comunicavam com a família apenas (e alguns vizinhos) por uma linguagem gestual criada pelas circunstâncias e sem qualquer capacidade de comunicar com terceiros estranhos ao grupo.
Neste momento os dois rapazes, comunicam através de uma linguagem gestual padronizada e utilizada pelos surdos e mudos no Norte… e vão (lentamente) adquirindo alguma instrução básica, tal como ler escrever, fazer algumas contas, etc…
No entanto, muito provavelmente nunca conseguirão mais de que um emprego simples no campo e com muito reduzida probabilidade poderão algum dia melhorar a sua condição de vida, ou até simplesmente casar.
…ou seja, a experiência observada aqui indica que estes dois membros com sorte conseguirão no futuro eventualmente apenas o seu sustento, mas dificilmente conseguirão contribuir com qualquer coisa relevante extra para a família.
Aliás, aqui tenho muita dificuldade em estimar as idades de determinada faixa da população. Sobretudo a que nasceu nos meios mais pobres nos últimos 20 anos.
Devido à subnutrição, o rapaz mais velho, que está ao lado da minha mala, aparenta ter uns 8 ou 9 anos (e de baixa estatura). Fiquei abismado quando soube que tinha 14 anos!
Depois das quatro filhas, a mais velha (que não aparece na foto) é cega de um dos olhos e as outras três pareciam ser saudáveis mas todas muito pequenas.
Agora imagina, num país onde as mulheres têm de ter dote, estas jovens estão todas, na palavras da minha colega, …..simply fucked.
A única pessoa que contribui para a família é a mãe, que trabalha num celeiro que também faz moagem de arroz. Ainda assim soube que conseguem poupar 30 cêntimos (de euro) praticamente todos os meses! Que colectivamente, num grupo de mulheres, colocam religiosamente no banco.
(para adicionar um pouco mais às dificuldades, o que poupam desvaloriza-se consideravelmente, pois a taxa de juro do banco é 16% para uma inflação de 20-25%)
Quando conseguem poupar mais ou menos 20 Euros, podem candidatar a um empréstimo de mais ou menos 100 Euros (que têm de justificar, etc… enfim os procedimentos de micro-crédito…)
Depois a casa (rectangular), é composta por um quarto que têm 1,5x2,0m onde vi penduradas algumas (mas muito poucas roupas), algumas almofadas, esteiras e umas caixas e uns plásticos.
A outra divisão é a cozinha, sala e quarto que deve ter mais ou menos 2,0x3,0m. Sentámo-nos no chão (uf! sombra fresquinha!), vi os cadernos da escola de alguns deles enquanto os dois rapazes por gestos contavam à família que me tinham visto durante a manhã na escola. Na cozinha havia uma cafeteira de ferro fundido muito usado (que tenho de arranjar uma) com ainda alguns pedaços de madeira ainda incandescentes por debaixo. As paredes, dão para ver na foto. São de bosta de vaca com argila e palha e o telhado de folhas de coqueiro entrelaçado.
A sala, quarto, cozinha era desprovida de tudo, excepto um pequeno espelho e uma prateleira improvisada suspensa, onde se amontoavam alguns pratos de metal, utensílios de cozinha, taperwares manhosos, alguns (mas poucos) frascos com especiarias, açúcar, etc.
Normalmente nos quintais existem algumas bananeiras, árvores de papaia, mangas, etc… mas nesta zona, o acesso à água durante alguns meses é muito limitado. E, ou tens um poço na tua propriedade ou na melhor das hipóteses nas imediações, ou então, outra vez nas palavras da minha colega……you are simply fucked.
Mas de alguma forma sobrevivem e lá vão, bem devagarinho, com doenças, fome, construindo a sua vida.
…surpreendentemente apesar de tudo, com sorrisos!
Não dá para ver muito bem nesta foto, mas nalgumas zonas desta região, nem dá para acreditar que estou nua ilha tropical, pois dá mesmo a sensação de que estou num país africano, com muito, muito, muito calor e pó.
Chego ao final do dia mesmo, mesmo de rastos e desidratado. A minha camisa branca com o suor agarra todo o pó da estrada. Buf! Os sábados de manhã são para esfregar a roupa que fica de molho desde sexta à noite…”
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Retrato de uma família…
Publicada por
Sandra
em
22:42
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2 comentários:
Hola, Alexandre: Soy José António, el primo de Xavier (de Peñarroya). No sé si leerás estas líneas, pero si las recibes son para desearte mucha suerte y buena labor en esas lejanas tierras. Te envío mi email, pero seguiré tus andazas por tu blog.
Un abrazo muy fuerte.
José António.
Éste es mi email: joseantonio2001@supercable.es
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