quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os meninos deslocados

Queridos amigos, junto transcrevo uma mensagem que o Alexandre escreveu a pensar em todos vós:

“Olá a todos!

Enfim, as coisas por aqui infelizmente continuam a deteriorar-se.

Os deslocados continuam a aumentar de número e a situação está cada vez mais difícil.

É muito triste observar famílias inteiras que pela terceira ou quarta vez nos últimos quinze anos deixaram tudo para trás e têm que começar do zero outra vez.

A assistência aos deslocados tem sido um verdadeiro desafio, pois algumas das famílias estão em zonas de difícil acesso. Isto é, existem estradas (de terra batida, mas existem) mas alguns dos locais onde as pessoas todavia permanecem, estão sujeitas aos bombardeamentos de artilharia terrestre ou aérea, o que dificulta/ impossibilita a assistência.

A vida dentro da cidade onde vivo também não é fácil e dá para ter um “cheirinho” do pânico que a população que neste momento reside mais próximo da frente de combate de volta e meia sente. Por vezes Kilinochchi também é bombardeada pelos jactos, o que implica corridas para um bunker a qualquer hora do dia ou da noite.

O ruído da artilharia pesada também está frequentemente presente e mais parece às vezes um dia (ou uma noite) de trovoada. Mas como normalmente as zonas afectadas estão a 8 ou 10 km de distância, ninguém (pelo menos por enquanto em Kilinochchi) liga!

Existem imensos detalhes do meu dia a dia que gostaria de partilhar, mas este não é todavia o momento.

No entanto, posso partilhar que frequentemente (por falta de tempo) faço algo que nunca havia imaginado…

…comer o que consigo encontrar (por exemplo baked beans, salada de frutas ou atum) directamente da lata!!

Ainda assim, no meio de tanta tristeza, cansaço e confusão, felizmente também consigo frequentemente encontrar momentos de intensa beleza, que com os quais consigo carregar as baterias para continuar.

Quero agradecer a todos pelos vossos comentários e pelos inúmeros e-mails (que leio e releio várias vezes), que me dão imensa alegria.

Buf! Não vejo o momento de vos encontrar a todos! …mas até lá, mãos à obra!

Beijinhos e abraços!”

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